A desinformação deixou de ser apenas um problema de circulação de conteúdo falso. Em muitos casos, ela passou a ocupar um espaço mais profundo: o da identidade pessoal e coletiva.
Hoje, não se trata apenas de acreditar em uma informação incorreta, mas de pertencer a uma narrativa.
Da dúvida ao pertencimento
O processo costuma começar com uma pergunta legítima. Uma desconfiança. Uma sensação de que algo não está sendo explicado corretamente. Em um ambiente marcado por crises políticas, econômicas e institucionais, essa sensação encontra terreno fértil.
O problema surge quando a busca por respostas deixa de ser investigativa e passa a ser afetiva. A informação não é mais avaliada pelo seu grau de veracidade, mas pela sua capacidade de confirmar crenças e reforçar vínculos sociais.
Comunidades da certeza

Grupos baseados em desinformação funcionam como comunidades fechadas. Eles oferecem:
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sensação de acolhimento
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reconhecimento
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uma narrativa simples para problemas complexos
Dentro desses ambientes, questionar passa a ser visto como traição, e o contraditório é rapidamente rotulado como manipulação, censura ou perseguição.
O papel das plataformas digitais
Redes sociais e aplicativos de mensagem aceleram esse processo. Algoritmos priorizam conteúdos que geram engajamento emocional — medo, indignação, revolta — e não aqueles que oferecem contexto ou nuance.
Com o tempo, o indivíduo deixa de consumir informação para se informar e passa a consumi-la para se reafirmar.
Quando corrigir não funciona

Um dos aspectos mais preocupantes desse fenômeno é que a simples correção dos fatos já não surte efeito. Ao contrário: estudos indicam que, quando uma crença está ligada à identidade, a confrontação direta pode reforçar ainda mais a convicção equivocada.
A desinformação, nesse estágio, não é percebida como erro, mas como posição moral.
Impactos sociais e democráticos
Quando narrativas falsas se tornam identidades, o diálogo público se fragiliza. O espaço comum de debate desaparece, substituído por versões paralelas da realidade que não se comunicam entre si.
As consequências vão além da esfera individual:
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erosão da confiança em instituições
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enfraquecimento do jornalismo profissional
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radicalização do discurso público
O desafio do jornalismo
Para o jornalismo, o desafio não é apenas desmentir, mas reconstruir confiança. Isso exige transparência, escuta ativa e a capacidade de explicar processos complexos sem simplificações excessivas.
Mais do que combater informações falsas, é preciso compreender por que tantas pessoas passaram a se reconhecer nelas.
Um fenômeno do nosso tempo
Quando a desinformação vira identidade, o problema deixa de ser técnico e passa a ser cultural. Ele reflete um mundo em que muitas pessoas sentem que perderam o controle, a voz e o lugar.
E, diante desse vazio, qualquer narrativa que ofereça sentido, pertencimento e certeza pode se tornar mais poderosa do que os fatos.
