Durante décadas, a vigilância foi associada ao Estado. Arquivos, cadastros, documentos oficiais. Mas no século XXI, uma pergunta ganhou força: as grandes empresas de tecnologia sabem mais sobre você do que o próprio governo?
Para muitos especialistas, a resposta é simples — sim.
O poder dos dados privados
Big Techs como Google, Meta, Amazon, Apple e Microsoft coletam dados de forma contínua e detalhada. Localização em tempo real, histórico de buscas, hábitos de consumo, contatos, preferências políticas, padrões de sono e até emoções inferidas a partir de interações online.
Enquanto o governo geralmente depende de formulários, censos e registros pontuais, as empresas digitais acompanham o usuário 24 horas por dia, muitas vezes com consentimento implícito.
Perfis mais precisos do que documentos oficiais
Algoritmos conseguem prever comportamentos com base em padrões: o que você vai comprar, onde vai estar, que tipo de conteúdo te prende por mais tempo e até em quem você pode votar.
Esses perfis são mais dinâmicos do que qualquer documento governamental. Eles mudam em tempo real e são constantemente refinados por inteligência artificial.
Quando os dados circulam

Embora empresas afirmem não vender dados pessoais diretamente, informações são compartilhadas com anunciantes, parceiros e, em alguns casos, autoridades governamentais mediante solicitações legais.
Escândalos como o da Cambridge Analytica mostraram como dados aparentemente inofensivos podem ser usados para influenciar decisões políticas em larga escala.
Controle sem rosto
Diferente do Estado, as Big Techs operam com pouca visibilidade pública. Seus algoritmos são protegidos por segredos comerciais, e decisões que afetam milhões de pessoas são tomadas sem debate democrático.
Banimentos, moderação de conteúdo, priorização de informações — tudo isso molda a percepção da realidade sem que o usuário tenha clareza sobre os critérios usados.
Conveniência como moeda
O crescimento desse poder se apoia em um acordo silencioso: conveniência em troca de dados. Serviços gratuitos, personalizados e rápidos custam algo menos visível — a privacidade.
O problema surge quando esse acúmulo de informações se torna assimétrico: poucas empresas sabem muito sobre muitos indivíduos.
Quem vigia os vigilantes?
Leis de proteção de dados, como a LGPD no Brasil e o GDPR na Europa, tentam equilibrar essa relação. Ainda assim, especialistas alertam que a regulação corre atrás de um modelo de negócios que evolui rápido demais.
No fim, a pergunta central não é apenas se as Big Techs sabem mais sobre você do que o governo, mas:
quem tem poder sobre esse conhecimento — e com que limites?
