O que começou como uma postagem anônima em um fórum obscuro da internet acabou se transformando em um dos movimentos conspiratórios mais influentes e perigosos da era digital. Conhecido como QAnon, o fenômeno ultrapassou o limite das teorias da conspiração e passou a influenciar comportamentos políticos, sociais e até atos de violência no mundo real.
A origem: quem é “Q”?
O QAnon surgiu em outubro de 2017, no fórum 4chan, quando um usuário identificado apenas como “Q” começou a publicar mensagens enigmáticas. Ele afirmava ter acesso a informações ultrassecretas do governo dos Estados Unidos — daí o “Q”, referência ao nível máximo de autorização de segurança (Q clearance).
Segundo essas mensagens, o mundo seria controlado por uma elite global secreta formada por políticos, empresários, celebridades e membros da mídia, envolvidos em crimes como tráfico humano e abusos contra crianças. Donald Trump, então presidente dos EUA, seria o líder de uma operação silenciosa para derrubar essa elite, em um evento prometido chamado “The Storm” (A Tempestade).
As mensagens eram vagas, cheias de códigos, perguntas abertas e frases ambíguas — o suficiente para que os próprios seguidores interpretassem, conectassem pontos e expandissem a narrativa.
De teoria online a movimento global
O que diferencia o QAnon de outras teorias da conspiração é sua capacidade de adaptação. Ele absorveu narrativas antigas — como o “Estado Profundo”, o medo do comunismo, desconfiança da ciência e da mídia — e se moldou a diferentes contextos políticos.
Com o tempo, o QAnon saiu dos fóruns anônimos e se espalhou por Facebook, YouTube, Twitter, Telegram e TikTok, alcançando milhões de pessoas. Influenciadores passaram a “traduzir” as mensagens de Q, transformando especulações em vídeos, podcasts e transmissões ao vivo.
O movimento também cruzou fronteiras, ganhando adeptos em países como Alemanha, Brasil, Reino Unido e Austrália, muitas vezes misturado a pautas locais.
Quando a conspiração vira notícia

O ponto de ruptura aconteceu em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio dos Estados Unidos tentando impedir a certificação da eleição presidencial. Diversos participantes exibiam símbolos, frases e bandeiras associadas ao QAnon.
Após o ataque, investigações do FBI e de órgãos de segurança confirmaram que o QAnon já era tratado como um potencial risco de extremismo doméstico. Desde então, pessoas ligadas ao movimento foram presas por crimes que vão de ameaças e sequestros a assassinatos motivados por crenças conspiratórias.
Plataformas digitais passaram a banir conteúdos ligados ao grupo, mas isso não o extinguiu — apenas o empurrou para redes alternativas e ambientes fechados.
O perigo silencioso
Hoje, o QAnon não depende mais da figura de “Q” para existir. O movimento se fragmentou, mas suas ideias continuam circulando: desconfiança total das instituições, rejeição de fatos verificáveis e a crença de que apenas “iniciados” conhecem a verdade.
Especialistas alertam que o maior risco do QAnon não é apenas a desinformação, mas a radicalização emocional. Ao transformar o mundo em uma batalha absoluta entre o bem e o mal, o movimento cria identidades rígidas, onde questionar a crença é visto como traição.
Uma conspiração que não ficou na internet
O QAnon é um exemplo claro de como teorias conspiratórias podem deixar de ser apenas curiosidades marginais e se tornar forças sociais reais, com impacto político, cultural e humano.
Mais do que perguntar se QAnon é verdadeiro ou falso, a questão central é outra:
o que acontece quando milhões de pessoas passam a viver dentro de uma narrativa alternativa da realidade?
